Literatura

 “REFLEXÃO SOBRE A PALAVRA «FAVOR»”

“Um dia… em minha companhia”

Segundo o meu dicionário de língua portuguesa, a palavra favor quer dizer “um ato que se faz a alguém de maneira voluntária”.
Isto quereria dizer, em muitos casos, que alguém faz por ti o que normalmente não faria por mais ninguém.
Favor é cuidar com diligência, pessoas, gostando delas ou não; a prática de dar sem exigir retorno, portanto, agindo de modo generoso e sem interesse.
Mas será que a palavra mantem o mesmo significado desde que foi colocada nos dicionários? “Privilégio, proteção, ajuda concedida arbitrariamente por uma pessoa com autoridade, poder ou influência a outra”, no meio da sociedade de hoje?! Será que esta palavra de excelência não tem vindo a ser maltratada pela sociedade?
Vejamos à nossa volta o que é o favor.
Hoje na sociedade, próxima de mim ou não; nas notícias diárias, ou na leitura das plataformas digitais, reparo que o sentido da palavra muitas vezes se encontra perturbado por pequenos fios ensarilhados na sua raiz, adquirindo como que um duplo sentido.
 A sociedade contemporânea tem por norma tornar o favor que é uma gentileza, uma ação gratuita, em o favor a ser mais tarde retribuído, extraviando-se assim a matriz da palavra.
Quando alguém tem necessidade de um favor, dirige-se àquela personalidade que tem o “poder” de decidir, de dar, portanto de complementar o favor, ou ainda, pedir o favor a outrem para que seja levado a cabo.
Mas o que é que acontece nos dias de hoje?
Aquele que tem acesso domina sobre o que precisa, e logo aquilo que o sujeito pediu, passa, com o tempo, a ter a necessidade de uma compensação, contrapartida. Quer dizer que o favor deixou de o ser no mais puro/fiel sentido da sua origem, e passa a ser uma divida para aquele que foi favorecido. Logo, este favor (serviço, empréstimo) transforma o recipiente do favor em servo do que emprestou ou favoreceu. Estes favores emprestados muitas vezes ganham elevados juros, e tenho a certeza que todos nós já o pudemos presenciar na sociedade, através de casos próximos ou ouvi-los através dos meios de comunicação.
“O rico domina sobre o pobre, e o que toma emprestado é servo de quem empresta”, diz em Provérbios 22:7.
O declínio dos valores da sociedade, reflete-se até na interpretação das palavras e no seu uso abusivo, sem respeito pelo seu significado inicial e o modo como pode ter impacto em quem ainda se rege pelos significados primitivos (por exemplo, cada vez mais se usa «brutal» com significado positivo, como algo de bom, fantástico, tornando, desnecessariamente, confusas frases como “Aquele filme era brutal!”); ou atribui duplas significações às palavras, normalmente atribuindo uma conexão sexual a algo perfeitamente banal, tornando o mais inocente dos discursos em alvo de vil chacota. E mais recentemente, conexões políticas, tornando praticamente proibidas palavras como, por exemplo “branquear” (ainda que seja isso mesmo que o produto faça). Falar em público tornou-se penoso, desgastante e até perigoso. Por outro lado, o abuso de certos termos, em particular os que descrevem situações do foro psiquiátrico, esvaziam de valor a própria realidade que deveriam descrever. A falta de parcimónia no uso de certas palavras e expressões, tem tanto de ignorância como de desrespeito, mas o impacto que vai causando é cada vez maior.
É nestes pequenos e subtis actos que se geram hábitos menos dignos e que não se associam, em nada, com o verdadeiro sentido de um favor. Pelo contrário, temos uma sociedade achocalhada de corrupção, que vai desde a profissão de menor visibilidade até aos cargos de todos títulos que lhe queiram agregar.
 Quantos de vocês já ouviram ou até mesmo disseram vezes sem conta esta frase: Ficas a dever-me uma. ?
Será que de alguma forma todos nós distorcemos o verdadeiro sentido do que é um favor!?
Será que o tempo ainda nos vem a exigir a limpeza dos nossos actos by clearing our inbox, começando do zero, voltando ao início, à base das palavras, ou será que até as ações mais simples se tornaram complexas?!

Ilda Pinto Almeida

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