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AS MEMÓRIAS DE UM PRESENTE

Ilda

Quando viajo sempre levo comigo os meus passaportes. O uso de cada um é feito mediante a sua abertura de circulação. Eles são a minha identidade e a liberdade física à descoberta do desconhecido ou do conhecido. Na cédula sou portuguesa, no coração sou cidadã do céu, com os meus  passaportes, sou viajante pelo mundo.

Hoje, depois de ter aberto um dos meus passaportes, aquele que não me iria causar um questionáro massivo à chegada ao destino, vou voando pelos céus, a uma altura bem considerável, por entre as nuvens, que mais parecem rolos de algodão, brancos como neve. Consigo descobrir por entre elas, à distância, rios que mais parecem estradas luminosas de cristal Swarovski. Os passaportes, esses, vão a repousar bem guardados ao meu lado até que um deles seja necessário para o preenchimento da declaração alfandegária.

Neste meu remoto olhar admiro as montanhas que parecem estar cobertas de neve, assim como se fora açúcar em pó caído do céu. Talvez seja a nostálgica partida em ponto-de-pérola nesta saudade de agora.

Do meu lado viaja o José, como quase sempre, pensativo. Ele lê ou trata de ler mais uma vez, “Ouro Azul”. Podia ver no seu rosto o reviver dos primeiros tempos de voos. Afinal este livro tinha uma história, por entre as suas páginas, que lhe dizia respeito.

Eu, ali sentada, olhava pela janela em cordéis de pensamentos que se entrelaçavam pelo horizonte dos céus. Eles voavam sem asas e sem correntes, embrenhados nas nuvens branquíssimas que luziam no cair da noite. Havia no lusco-fusco um branco brilhante, adornado de ouro fino, naquele firmamento. Ainda podia deslumbrar o azul e o cinzento deste céu que estendia uma auto-estrada da viagem de destino.

Quantas vezes mais viajarei por este céu? Perguntou a minha alma.

Desta vez, e pela primeira vez, tapava o meu rosto com uma máscara facial, acessório dos tempos que correm. É o intruso,o bicho como diziam as pessoas da aldeia. Ele é um gigante devorador usurpador, mas eu não tive medo dele. Viajei, fui à terra. Percorri cerca de 7317Km, a uma velocidade média de 800km/h em pouco menos de 7h. As pessoas até manifestaram uma certa distância ao ver-me na chegada à terra, mas nada que me tivesse entristecido pois eu entendi as suas preocupações.

– Não te preocupes amiga, eu fiz o PCR ou SARS-CoV-2 setenta e duas horas antes de embarcar, sei que estou bem, agora tu… e assim se foram desfazendo alguns preconceitos a esta forasteira na sua terra natal.

O COVID 19, realmente é um gigante, e eu um pequeno David. Mas tal como David que matou o gigante com uma pequena pedra eu estou protegida pelo sangue de Jesus, meu eterno salvador.

O voo vem quase vazio e eu tenho tempo para relembrar e ler o “Diário da pandemia”, do Carlos Almeida. O Carlos viajou em ficção até à China , eu viajo pelo céu, dentro de um peixe com uma cabeça gigante e duas barbatanas enormes que deslizam, com mestria, por entre as nuvens de um firmamento que hoje é o meu corredor de passagem.  

SEP 22 TP202 Lisbon/ Newark seat 23E.

A minha viagem, ao contrário da de Carlos, é real. O meu pensamento também. O público também, e a máscara que esconde rostos, talvez cansados, pensativos, também. É dificil decifrar somente pelo olhar o que lhes vai na alma. Nada disto é suposição, mas uma realidade anormal que se esconde através de um vírus que nos priva da liberdade.

O céu está colorido, mais parece uma aurora tardia em mistérios, mas daqui a pouco vai ficar negro. A N95 de cor branca e elásticos amarelos, apertam-me as orelhas e a respiração torna-se desconfortável. Os óculos ficam nublosos, dando-me a ideia de estar a atravessar o rio Vouga às cinco da madrugada no seu momento mais intenso de nevoeiro. Decidi tirar estes olhos supelentes e lá se me foi a leitura.

Entretanto o José deixou que o livro repousasse as letras, outros dormem e ainda há os que caminham pelo corredor para matar o tempo ou para esticar as pernas. A noite já se faz presente e da janela tudo é negrejante, apenas é possível ver a luz intermitente em uma das barbatanas.

As luzes presenciais trazem uma neblina às minhas retinas, e eu tiro do meu saco a minha minúscula sebenta e começo a escrever, desalmadamente, pelo tino. Não posso perder a minhas lembranças, as façanhas dos dezasseis dias. Tive receio que a memória se tornasse em curto prazo, e eu não queria perder nenhum acontecimento, nem um gesto sequer.

Fora deste movimento de aqui de dentro, quase silencioso, tudo é breu como o alcatrão e eu escrevo percorrendo os dias que justamente findavam, grata pelo tempo que tinha vivido. Escrevo neste caderno de trás para a frente, não sei se já o fizeram, mas foi sem querer. Eu apenas queria fazer uma anotação, mas já vou em quatro folhas começadas do fim do caderno para o início. Começo a ficar curiosa pelo efeito.

E se guardar este bloco por algum tempo e me esquecer do que fiz?! Será uma leitura interessante, será que tive um sonho engraçado ou um pesadelo!

O Zé já dormita. O vizinho da frente esticou o banco para trás e eu sinto que o meu espaço ficou mais pequeno.

Não penso na pandemia, neste anormal normal. Não me interessa dar-lhe demasiada importância. Só não me esqueço dela por causa da máscara que ela me obriga a usar. Mas não, não lhe vou dar o valor que ela deseja. Eu vou desprezar a sua existência porque me veio tirar a liberdade. Eu não tenho simpatia por ditadores.

Continuo a escrever, e agora rabisco de cá para lá, mas quando ler estes rabiscos todos, quem sabe, atrapalhados, ao viés, estarei do lado de lá. Será sempre assim, será difícil de perceber qual é a travessia se não estiver atenta ao TP do voo .

– Pasta, Frango ou Chicken? – Pergunta a assistente de bordo.

Galinha. – Respondo eu. E o jovem vizinho irrequieto, da frente, salta do seu assento, como um cavalo sem rédeas…

Ups! Sorry … E lá se verte o vinho tinto do meu copo.

Excuse me Sir, do you want a cup of tea? – Pergunta a menina no seu british accent. Pois é! O José já está habituado a ser tratado por inglês ou até mesmo por sueco. Nada que o perturba-se  ou se esvazia-se da sua calma habitual , se não fosse este um voo com regras irregulares.

José

-Já cá faltava o confundirem-me com um inglês ou um sueco! Se não fosse a Ilda achar imensa piada a isso, haveria sempre confusão porque eu não acho graça nenhuma… E o que raio anda para aqui? Procuro ao lado do assento da Ilda e lá está o que me chamou a atenção: um pé do vizinho da fila de trás que o esticava por entre os bancos a relaxar os nervos.

Bolas, já não bastava o da frente que entornou o vinho… não sei se estou bem desperto… mas parece-me que a Ilda está a escrevinhar na sebenta dela – e isso não é nada estranho – mas está sem óculos e não sei se é por isso, que me parece que escreve do fim para o princípio! Digo-lhe alguma coisa? Como é que depois vai perceber o que escreveu? Será que eu estou acordado?!”

Ilda

Atenção, atenção por favor, senhores passageiros. Retomem o assento e apertem os cintos, estamos a passar uma zona de turbulência.

E lá começa, desta vez, o chá a dançar no copo impossibilitando de o levar à boca para ser engolido. E com todo este aparato, lá vem o ditador da máscara. Seria esta uma oportunidade de ter o nariz ao de fora por mais uns minutos. É chato, prepotente e gosta de ser lembrado pelo olhar do vizinho.

Bom, mais um gole de nariz destapado. Dois minutos já passaram e mais uma golada, a última deste copo de papel, que por acaso até é um recipiente bonito com o galo de Barcelos por desenho, com chá preto e creme.

Já cá faltava esse olhar acusador!

Já ponho, deixa-me limpar os bigodes! Mas que indiscreto!

Vou me levantar um pouquinho e aproveitar a ir ao WC, assim que o pássaro fique mais tranquilo.

Lá me acabei por levantar e caminhar nos tremelicos do estreito corredor até chegar ao lugar, e mijar em zigzag por aquele buraco. Qual foi a minha proeza para que tudo caísse dentro da bacia! Mas foi possível. Toca a lavar as mãos e tapar a face novamente, rumo ao 23E, para mais um pouco do diário do professor, até que as luzes fossem de novo apagadas e eu pudesse regressar aos meus deslumbrantes pensamentos, por aquela semiaberta janelinha, agora em uma ofuscante penumbra celestial estrelado e a asa do animal refletindo uma luz intermitente onde se via a cor verde e vermelho, relembrando-me de onde vinha.

Por um instante reclinei a cabeça lembrando-me do verme, assegurando-me que a máscara estava bem apertada. Ele faz questão de se não deixar esquecer.

Fechei os olhos.

Por breves momentos recordei os dias que tinham passado. Recordei a Isabel Silvestre no café Central a escrever um poema dedicado ao casal Almeida, como ela se nos referia, com toda a simplicidade e carinho que criámos.

Recordei a presença dos embaixadores dos Estados Unidos na festa de lançamento do livro “Ouro Azul”, e a honra que me deram com a sua presença, naquele dia chovoso e sombrio, só no tempo, e de como mesmo assim de guarda-chuva aberto fomos tirar uma fotografia junto às Rosas Bombeiras. Estas foram oferecidas pela Embaixada à Câmara Municipal pela altura dos trágicos incêndios florestais de 2017, e plantadas no Jardim da Alameda em 2018 pela embaixatriz Mary Glass, actividade da qual também eu fiz parte como o elo luso-americano entre a Vila e os Estados Unidos.

Recordei também as palavras do senhor presidente ao referir projectos que incluiriam a minha escrita; e foi neste pestanejar de olhos que as memórias escritas e as por escrever se misturaram. E neste ainda por vir, de vai e vens de travessias, neste céu em que os pássaros sem asas voam e o peixe gigante navega por entre as nuvens em um firmamento azul ou estrelado navegante; em que o José, esse, ressonava como um comboio a vapor, a minha razão apontava no diário da mente tudo o que acontecia no emaranhamento da alma.

E, hoje neste dia de Outubro, ao terminar de ler os meus apontamentos que começaram no fim de uma sebenta para o seu inicio, pude ler:

“Hoje senti que voava pela calada de uma noite nas asas, não sei se de um pirilampo, ou de um peixe gigante, em uma data que não sei exactamente. Não sei se já passei a linha de vinte e dois de setembro, mas sei que chegarei a 22, e também sei que em algum lado deste céu serão 23 de setembro.

Sinto que os meus olhos voam pela minúscula janela e reparo que os luminares são abundantes e maravilho-me com aquilo que vejo. As luzes estão apagadas e eu escrevo pelo tino, desalmadamente, sobre este quase luar que me cobre neste meu assento, em uma folha branca, apagando o verme ditador da minha mente, do qual a história falará, mas eu recuso-me a dar-lhe a importância que ele tanto deseja, ainda que eu tenha um pedaço de rosto tapado”.

Assim encontrei o que era o fim dos minhas anotações, em letra escarrapachada, baldrocada por todo o lado, mas também concluí que este apontamento poderia ter sido o início desta crónica.

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